A “AgriZone” mostrou o sucesso do setor agrícola brasileiro durante a COP30, em Belém, no Pará
Entre a umidade da Amazônia e a diplomacia internacional, a recém-encerrada COP30 serviu como um laboratório de duas realidades distintas para o agronegócio global. Do lado de fora das portas fechadas, na chamada “AgriZone”, o Brasil marcou o que observadores e jornalistas descreveram como um “golaço” de soft power, apresentando uma agricultura tropical baseada em ciência e preservação.

À medida que os pavilhões são desmontados em Belém, no Pará, o saldo final aponta para uma vitória de narrativa, onde o agronegócio é um negociador de fato, produzindo com emissão de baixo carbono.
Na COP30, a ascensão da “AgriZone” e o novo discurso
Durante dez dias, a estratégia brasileira de dissociar a produção de alimentos da degradação ambiental encontrou seu palco mais eficaz. Longe da postura defensiva de cúpulas anteriores, o setor apostou na pedagogia científica.

A AgriZone, ambiente de negociação da COP30, abrigou aproximadamente 400 eventos, vitrines vivas com tecnologias de baixo carbono e virtuais com soluções sustentáveis, experiências gastronômicas e culturais, imersão na floresta amazônica, que tornam a agricultura mais resiliente à mudança do clima.
A presença da Embrapa e a exposição de sistemas como a integração lavoura-pecuária-floresta e a produção de três safras anuais transformaram ceticismo em curiosidade.

Renata Marron, jornalista que acompanhou a conferência, descreveu o ambiente como “o local mais organizável e bonito” do evento. Ela também comentou: “Pela primeira vez, em um palco mundial, vi o agro brasileiro ser aplaudido em unanimidade, nacional e internacionalmente, sem qualquer espaço para questionar o inquestionável, onde consciência, pesquisa inovação, tecnologia e dados, foram marcos e ver tudo isso fez a diferença”, disse Renata.
Ainda sobre o evento, Marcos Antonio Matos, Diretor Executivo Cecafé, também comentou. “A COP30 foi uma vitrine para Brasil assumir protagonismo global na transição verde, baixo carbono, mostrando todo o potencial que o país possui como centro de sustentabilidade e inovação e reposicionar a imagem internacional do país – referência mundial em inovação de agricultura sustentável”, disse Marcos.

Ele ainda completou que o café brasileiro apresenta respostas consistentes, com iniciativas bem-sucedidas de integração produtiva, uso racional de recursos, regeneração de solos, agricultura circular, Índice de Desenvolvimento Humano, balanço de carbono negativo (maior sequestro em relação as emissões totais) e parcerias estratégicas.
O gargalo da “Blue Zone”
Enquanto o agro brilhava nas demonstrações técnicas, seus representantes enfrentavam barreiras físicas e burocráticas nas esferas de decisão. Eduardo Bastos, da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), apontou uma disparidade crítica: o Ministério da Agricultura recebeu apenas 16 credenciais para a zona de negociação oficial, enquanto outras pastas obtiveram centenas.
“A minha credencial, por exemplo, veio de outro país”, revelou Bastos, ilustrando a improvisação necessária para que líderes do setor pudessem dialogar com negociadores.

Essa falta de acesso direto é preocupante diante das pautas financeiras em jogo. O rascunho dos documentos finais da COP30 apontam para a necessidade de US$ 1,3 trilhão anuais a partir de 2035 para financiamento climático. Marcelo Morandi, da Embrapa, alerta que, embora haja capital interessado em financiar a agricultura, ele virá atrelado a critérios rígidos de sustentabilidade.
A conferência trouxe ainda referências inéditas que reconhecem o papel dos povos indígenas e reforçam a agenda de igualdade de gênero nas decisões climáticas.
Sistemas Alimentares na COP31
O olhar agora se volta para a COP31. Com um formato híbrido incomum entre Turquia e Austrália, a próxima conferência terá como foco central os “Sistemas Alimentares”.
Para os especialistas ouvidos em Belém, este será o momento da verdade. O avanço obtido no Brasil — a aceitação da agricultura como ciência — precisa estar blindado, provando que o agro brasileiro sabe fazer o dever de casa no campo. O desafio até a próxima conferência será provar que está atento ao jogo político com a mesma competência.
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