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Imagem mostra abelha sobre flor

Sobre abelhas e humanos

As abelhas estão sofrendo o impacto causado pelos agrotóxicos

Recentemente, alguns meios de comunicação noticiaram a morte de aproximadamente 500 milhões de abelhas ocorridas nos estados do Sul do país, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Como acontece com muitas outras notícias de impacto, sua repercussão foi breve, e o público pode mesmo ter dificuldade em entender o que significa esse número. Para facilitar sua compreensão, e considerando que a estimativa é correta, o cálculo pode ser feito de outra forma. No estudo dos insetos sociais, como é o caso das abelhas melíferas europeias e africanizadas, faz sentido pensar nas colônias como unidades populacionais, pois são estas que se reproduzem. Os indivíduos isolados, por sua vez, não têm possibilidade sequer de sobrevivência.

Colmeia sobre uma árvore
Além do impacto ambiental, apicultores também são afetados pela mortandade das abelhas

Uma colônia de abelhas da espécie Apis mellifera pode apresentar entre 50 mil a 100 mil indivíduos. Portanto, a estimativa acima corresponde a perda de 5000 colmeias fortes – com cerca de 100 mil abelhas cada uma – ou 10 mil colmeias médias. Trata-se de um impacto marcante qualquer que seja a população de animais considerada. Qual o impacto econômico da mortandade noticiada? Quantos apicultores seriam afetados, quanto mel, cera, própolis e geleia real deixariam de ser produzidos? É claro que muitas dessas abelhas podem fazer parte de populações naturais, dificultando o cálculo do prejuízo. Porém, como já foi comentado neste espaço em outro artigo (ver Muito além do mel), o principal serviço prestado pelas abelhas ao meio ambiente e ao ser humano é a polinização das plantas, sejam essas de interesse econômico ou não. A perda ambiental se soma e ultrapassa a perda econômica.

Agrotóxicos x abelhas

A explicação encontrada para a morte das abelhas foi a contaminação por agrotóxicos. Esses, aplicados sobre as culturas agrícolas, causaram a morte dos insetos praga – o alvo dos inseticidas – mas também das abelhas e de outros animais atingidos pela nuvem de substâncias tóxicas pulverizadas sobre as plantações. Contudo, esses venenos não estão presentes apenas nos vegetais usados como alimento. Podem ser encontrados nas rações dadas a animais que, por sua vez, também são utilizados como ou fornecem alimento, e espalham-se pelo meio ambiente, contaminando cursos d’água, o solo e lençóis freáticos.

Abelhas coletando néctar de flores
Bombus affinis, popularmente chamadas mamangavas no Brasil, é uma
das 25.000 espécies de abelhas conhecidas

Em relação à presença de substâncias tóxicas no meio ambiente, no sentido mais amplo da palavra, é recomendável a leitura de um clássico da literatura científica, a obra Primavera Silenciosa, da bióloga norte-americana Rachel Carson. Publicado pela primeira vez em 1962, ainda atual e frequentemente reeditado, o livro alerta para a ocorrência do fenômeno da bioacumulação: substâncias tóxicas não-biodegradáveis, mesmo quando lançadas em quantidades mínimas no meio ambiente, tendem a aumentar sua concentração ao longo das cadeias alimentares, atingindo níveis patológicos, e até letais, nos animais que ocupam níveis tróficos mais elevados.

Abelhas são estritamente herbívoras, alimentam-se de néctar e pólen, e já sofrem os efeitos nefastos dos assim chamados defensivos fitossanitários. Humanos possuem uma dieta diversificada, e em uma única refeição podem se comportar como herbívoros e carnívoros: são, portanto, mais sujeitos ao efeito cumulativo de defensivos químicos.

Água contaminada

No que diz respeito à água, a agência de jornalismo investigativo Publica divulgou estudo revelando que 1 em cada 4 municípios brasileiros oferece água para consumo humano contaminada por pesticidas (consulte a situação de seu município na página Publica). As empresas de abastecimento são obrigadas a testar 27 tipos de defensivos agrícolas, e todos eles foram encontrados nas amostras analisadas. Segundo a Anvisa, 16 desses compostos são associados ao desenvolvimento de malformações fetais, disfunções hormonais ou reprodutivas, e câncer.


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Apenas em 2019 foi liberado o uso de mais de 200 novos produtos compostos por agrotóxicos. Agricultores e representantes do Ministério da Agricultura argumentam que estes novos tipos são, na verdade, produtos que combinam uma variedade de novas moléculas, ou de moléculas já utilizadas em outros produtos, em diferentes proporções. Como já foram testados, não representariam perigo. Porém, a Anvisa testa o efeito de cada novo componente de forma isolada, e não se sabe qual pode ser o efeito dessas substâncias quando consumidas na forma de ‘coquetéis’, sejam estes vendidos como tal, ou se combinando aleatoriamente no solo e nos lençóis freáticos.

Os kayapós e as abelhas

Voltando ao início deste artigo, o caso das abelhas pode ilustrar o que os biólogos chamam de bioindicadores ambientais: espécies ou grupos de espécies cuja presença, abundância e condições são indicativos da saúde ou qualidade ambiental. Indígenas da etnia kayapó habitam florestas amazônicas. Em sua sabedoria tradicional, escolhem o local de instalação de suas ocas de acordo com a presença de abelhas nativas. Quando esses animais estão presentes, os kayapós sabem que a flora e a fauna são generosas, e oferecem recursos que garantem o sustento da comunidade. O que teriam a dizer sobre a mortandade de abelhas observada no sul do país?

Abelhas coletando néctar de flores
As abelhas visitam as flores para obtenção de néctar – que será transformado em mel –
e pólen, usados como alimento

Em tempo: o leitor deve ter notado, neste artigo, o uso de variados termos com significado equivalente: veneno, agrotóxico, substância tóxica, pesticida, defensivo agrícola, defensivo fitossanitário. Não se trata de mero recurso estilístico. O projeto de lei 6.299/02 tramita no Congresso. Chamado informalmente de ‘pacote do veneno’, o projeto propõe que o termo ‘agrotóxico’ seja substituído por ‘pesticida’, ‘defensivo agrícola’ ou ‘defensivo fitossanitário’ nas embalagens que comercializam o produto. Não deixa de ser uma forma de desviar a atenção sobre os efeitos colaterais do uso, abusivo ou não, dessas substâncias.


João Batista Vicentin Aguilar
Biólogo formado pelo Instituto de Biociências da USP (licenciatura e bacharelado)
Mestre em Ecologia e Doutor em Ciências pelo mesmo Instituto (área de concentração do doutorado: Ecologia de ecossistemas terrestres); os trabalhos de pós graduação foram feitos no Laboratório de Abelhas do IBUSP
Professor de Zoologia e Ecologia no ensino superior
Professor de Ciências e Biologia no ensino fundamental, médio e EJA
Autor de livros didáticos para o ensino fundamental e médio


Fotos: Equipe Ecooar


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