Foto mostra uma das mães do projeto plantando uma árvore

Mães e árvores

Tudo na vida passa pelas mães, seja ela a nossa ou a mãe natureza


*Eugênia Pickina


“A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.” José Saramago

Mãe não é tudo igual. Cada uma é norteada por suas idiossincrasias. Para dizer algo sobre as mães, entendo então pertinente a metáfora das árvores.

Foto mostra mão com goiaba
Goiaba: delicioso fruto que vem da mãe-natureza

Como as árvores, certas mães são (mais) abundantes, atuando no mundo como árvores frutíferas – goiabeiras, uvaieiras. Cuidam de seus filhos (dois, três quatro, cinco…) movidas por uma incansável paciência. Por essa qualidade generosa, vivem a maternidade com uma despojada soltura de espírito.

O mundo e as mães

Em todas as partes do mundo, existem as mães resilientes, e principalmente as que acolhem e amparam, com amor e valentia, seus filhos enfermos ou com deficiência. Essas mães são como o juazeiro, árvore símbolo do sertão nordestino, que fincado no chão desafia a hostilidade do clima, aprofundando suas raízes à procura das águas escondidas, e para insistir em dar flor e não se entregar. 

Tenho admiração pelas mães sensíveis, elas que se dedicam, como a mesma força criativa, aos filhos e às artes – música, dança, poesia… A natureza dessas mulheres alude ao enredo da bracatinga, árvore nativa da Mata das Araucárias, cuja casca, a cada dois anos, é atacada pela cochonilha, um inseto que suga a seiva da árvore e expele o melato, um líquido doce que atrai as abelhas, artesãs devotadas, que produzem um tipo de mel genuíno conhecido, no sul, como Melato de Bracatinga.

Sementes que modificam

Há ainda um grupo de mulheres, elas que não puderam/quiseram ter filhos, mas, através de suas sementes, promovem ações que causam diferença na vida dos bichos, na preservação das florestas, na saúde dos oceanos, ou seja, mulheres que colaboram com os anseios da Pacha Mama. Lembram a araucária, árvore bem brasileira, que não tem fruto verdadeiro, mas cuja semente, o pinhão, garante a alimentação de muitos animais, principalmente pássaros e roedores.

Em razão da infância sulista, uma das minhas lembranças de inverno é o cheirinho de pinhão na chapa na casa da minha avó, que cozinhava melhor que minha mãe, e até hoje me aparece em sonhos brincando comigo no seu pomar festivo.

Foto mostra araucária, ligada as mães no texto
Araucária: árvore brasileira, que não possui fruto verdadeiro, mas cuja semente, o pinhão, garante a alimentação de muitos animais

Sobre a minha mãe? Sem concluir os estudos, minha mãe foi uma mulher com a alma moldada pela curiosidade e amor pelo mundo natural. No Mato Grosso, seu último refúgio, plantou árvores nativas por respeito à biodiversidade. Como o Rubem Alves, tinha uma predileção assumida pelos ipês, árvores  que precisam da seca para florir…

Minha mãe, habituada aos ritmos da natureza, não tinha medo da morte. Aos 64 anos, morreu discretamente, em meados do outono. Seu legado? Os belos ipês, começando pelo rosa e roxo, depois o amarelo e por último o branco.

Notinhas

O Melato de Bracatinga provém de secreções de cochonilhas (insetos) que infectam o tronco da Bracatinga (“Mimosa scabrella”). As abelhas transformam esta secreção em “mel de Melato”. O mel de melato da bracatinga possui algumas características: para sua fabricação são necessárias as abelhas, um inseto chamado de cochonilha e a árvore de bracatinga. É justamente essa associação que faz o produto ser tão especial; a produção é feita apenas em anos pares, durante os meses de janeiro a maio, em algumas áreas de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Esse fenômeno ocorre apenas em regiões com altitudes acima de 700 metros no planalto sul brasileiro.

Foto mostra abelha em flor
Abelhas são responsáveis pelo “mel de Melato”, que é produzida a partir de secreção de insetos

No Brasil, o costume de comer pinhão foi herdado de algumas tribos indígenas. No passado, por exemplo, na dieta Kaigang, os pinhões eram valiosos. Cf. www.portalkaigang.org

Pacha Mama: a Mãe-Terra de todos os povos, segundo os povos indígenas andino-amazônicos.


*Eugênia Pickina
Escritora e educadora ambiental. Especialista em Filosofia (UEL-PR) e mestre em Direito Político e Econômico (Mackenzie-SP).
Tem livros infantis publicados pelo Instituto Plantarum, colaborando com o despertar da consciência ambiental junto ao Jardim Botânico Plantarum (Nova Odessa-SP).
Ministra cursos e palestras sobre educação ambiental em empresas e escolas do estado de São Paulo e do Paraná, onde vive.

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