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Foto contém rio com árvores em sua margem em Portland, Estados Unidos

Lições do Coronavírus para o meio ambiente

Coronavírus é o tema deste importante artigo escrito por Ophelis de A. Françoso Jr. e José Eduardo Pereira Wilken Bicudo.

O experimentalismo de campo faz parte do rol de procedimentos científicos em biologia. Nesse tipo de abordagem, introduz-se uma variável de interesse no ambiente e compara-se um dado lote de organismos antes e depois dessa mudança induzida. Ou ainda pode-se comparar esses mesmos organismos com populações-controle de tamanho e condições semelhantes, porém de um ambiente também similar, mas que tenha permanecido isento daquela variável introduzida. Esses procedimentos têm a vantagem de não alterar significativamente o comportamento “normal” da população estudada que, de outra forma, poderia ser modificado pela simples transposição dos organismos a um laboratório, devido aos fatores muitas vezes imponderáveis que poderiam interferir nos resultados. Por questões éticas, as variações encontradas nas sociedades humanas não podem ser manipuladas somente para se compreender as dinâmicas sociais, mas esse panorama sofreu um revés do acaso.

Foto mostra pessoas caminhando em frente a St. Patrick's Cathedral, em New York antes do Coronavírus
Mudanças profundas na humanidade podem ocorrer após a pandemia

Até este artigo ser escrito, as mortes causadas pela doença do Coronavírus[1] em todo o planeta, que passaram de 140 mil, com mais de 2,1 milhões de casos confirmados, funcionou como um indutor de mudanças cujos resultados podem ser auferidos notadamente sobre a questão ambiental. Nesse ponto, caberia uma reflexão fundamental para o futuro pós-pandemia: continuarão as populações humanas se comportando dentro da normalidade ou ela deixará mudanças profundas na humanidade? Vejamos as possíveis respostas.

Efeitos econômicos e financeiros sobre as atividades humanas

A Associação Internacional de Transportes Aéreos[2] previu que somente neste ano, o setor pode ter uma perda de 113 bilhões de dólares americanos devido à redução das viagens aéreas. Na Europa, o tráfego de aviões sofreu severa queda devido ao fechamento das principais fronteiras. Estimativas dão conta de 67 milhões a menos de passageiros nos três primeiros meses de 2020 em relação a qualquer ano anterior[3]. Muitas companhias continuam cancelando seus voos à medida que o vírus se espalha pelo mundo.

Imagem contém avião em aeroporto durante pandemia de Coronavírus
Aeroporto Internacional Washington Dulles: perdas no setor aéreo
devido ao Coronavírus atingem cifras milionárias

Em relação aos transportes terrestres não é diferente. Parte das viagens que deixaram de ser feitas durante a pandemia nunca mais voltará. Ninguém se deslocará a mais somente para compensar os dias trabalhados em casa. Mas, e quanto aos outros tipos de viagem? É possível que a quarentena tenha um impacto psicológico suficiente para criar nas pessoas uma necessidade de “compensação” visando recuperar um suposto “tempo perdido”, o que aumentaria os deslocamentos devido ao efeito que poderíamos chamar de “estouro da boiada”. Neste último caso a pandemia terá atuado no sentido de fazer a sociedade voltar aos velhos hábitos. Mas, e se ocorrer o contrário? Pode ser que passemos realmente a ficar mais tempo em casa, concentrando-nos em novas prioridades agora consideradas essenciais: saúde, bem-estar da família, relacionamentos com amigos e aprofundamento das alianças comunitárias. Se essa mudança ocorrer como subproduto da pandemia, certamente melhorará a qualidade de vida das pessoas impactando para baixo o consumo de bens, serviços e combustíveis.

Um estudo de 2018 feito na Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique (Suíça) mostrou que muitas pessoas privadas temporariamente de dirigir automóveis, e que tinham acesso a bicicletas elétricas, usavam muito menos seus próprios veículos quando, por algum motivo, o conseguiam de volta. Outro estudo realizado na Universidade de Kyoto (Japão) constatou que muitos motoristas forçados a usar o transporte público devido à interdição de uma rodovia permaneciam nesse modal mesmo após a reabertura da estrada. Um último exemplo pode ser dado com o desperdício de alimentos. Comunidades submetidas a períodos de escassez tornaram-se mais econômicas e menos perdulárias, o que tornou seus próprios estoques de alimentos mais duradouros. Portanto, o surto de Coronavírus pode alterar significativamente os hábitos que impactam na qualidade de vida das populações, tornando quase imprevisível o que acontecerá depois.

Foto mostra pessoa andando de bicicleta em meio a mata
Pessoas privadas temporariamente de dirigir automóveis, utilizam outros meios de
transporte e esse hábito pode permanecer mesmo após a liberação dos carros

As mudanças forçadas pelo vírus também trouxeram consequências inesperadas nos demais setores da economia como o fechamento de indústrias e de empresas prestadoras de serviços. Além das mortes precoces, a pandemia provocou perdas de empregos ameaçando a capacidade de sobrevivência de milhões de pessoas. À medida que as empresas lutam para lidar com as restrições impostas pelos governos a atividade econômica se reduziu drasticamente e os mercados de ações, caíram. Tais consequências apenas demonstram o grau de fragilidade do mundo que foi construído por nós nas últimas décadas. Têm demonstrado também que a maneira pela qual as economias mundiais vêm operando, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, não só tem gerado desigualdades sociais cada vez mais elevadas, mas tem feito com que as populações mais empobrecidas se tornem as mais vulneráveis por ocasião de uma pandemia como essa que ora experimentamos. Essas populações além de viverem sob condições miseráveis, em ambientes poluídos, em geral próximas a fábricas e outros agentes poluidores do meio ambiente, ainda apresentam severas comorbidades, como diabete, hipertensão e doenças pulmonares, tornando-as ainda mais vulneráveis ao vírus.

Foto mostra casa simples feita de madeira e coberta com lona, que pode propiciar a disseminação do coronavírus
Habitações precárias podem ampliar o alcance de muitas doenças, como o Coronavírus

A indústria, de modo generalizado, sofreu forte queda na atividade, em escala só comparável à dos transportes. Caso o surto prossiga por até um ano, o consumo de bens e serviços também poderá permanecer baixo devido às quedas salariais. Nesse caso, a indústria petrolífera, mesmo mantendo a capacidade de produção, pode ter sido irreversivelmente abalada.

Um fato alentador é que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que a economia global poderá oferecer uma grande oportunidade de recuperação caso os estímulos financeiros se desloquem de setores ainda movidos por fontes energéticas não renováveis para setores movidos a energia limpa.

Consequências ambientais

As imagens de satélite fornecidas pelo Sentinel-5P da Esa (Agência Espacial Europeia)[4], e da Nasa (Agência Espacial dos Estados Unidos) tem mostrado que as emissões de gases de efeito estufa (GEEs), principalmente de óxidos nitrosos, estão diminuindo significativamente na China, na Itália, na Espanha e no Reino Unido. O dióxido de nitrogênio, por exemplo, é produzido principalmente por motores de veículos, usinas termelétricas à base de carvão e outros processos industriais. Ele também responde pelo aparecimento de inúmeros problemas de saúde, especialmente de doenças respiratórias, na maioria das vezes em comunidades que vivem sob condições de extrema pobreza e consequentemente mais vulneráveis a esses poluentes. Uma das maiores quedas desse gás foi observada em Wu-Han, que viveu um rigoroso bloqueio desde janeiro, com a maioria de seus 11 milhões de habitantes em regime de confinamento. As indústrias e as viagens foram completamente interrompidas em toda a província, o que resultou em uma queda de 10 a 30% nas emissões de GEEs.

Imagem mostra mapa da Europa com emissões de GEE antes e durante a pandemia de coronavírus
Análise feita pela ESA mostra a redução nas emissões de GEEs na Europa,
antes e agora, durante a pandemia

Outro impacto significativo foi a queda no consumo de carvão combustível, o que contribuiu, em grande parte, para essa redução de poluentes. Estima-se que em 2018 somente a China manteve cerca de 59% de suas necessidades energéticas com base no carvão, o que se reduziu para 36% entre fevereiro e março deste ano.[5] Essa tendência terá que ser ainda mais acentuada se ainda quisermos preservar biomas que vêm sendo devastados como consequência da indústria da mineração em geral, e em particular da exploração do carvão mineral. Estudo recente[6] demonstra que o desmatamento e a fragmentação crescentes de habitats têm sido identificados como processos que facilitam a transmissão de infecções zoonóticas como o Coronavírus.

Com o confinamento imposto em vários países, o consumo doméstico de energia teve um aumento de 6% a 8%, dependendo da região. Por outro lado, com poucas pessoas nos prédios comerciais ou nas escolas, a demanda nesses locais deverá cair para cerca de um quarto. No balanço geral, haverá economia de energia, uma vez que o aumento no consumo doméstico será compensado por uma queda bem maior nas edificações comerciais. À medida que essa demanda diminui, haverá o efeito indireto de reduzir a poluição provocada pelas usinas termelétricas.

Finalmente, as emissões combinadas dos processos industriais, da manufatura e da construção civil, que compõem 18,4% das emissões antropogênicas globais, também sofreu retração.

Todos esses efeitos provocaram uma redução significativa na poluição do ar em muitas partes do mundo principalmente nos países industrializados ou em desenvolvimento. Pesquisadores verificaram que houve uma queda de 5 a 10% no material particulado atmosférico, além de gases como o dióxido de carbono, o monóxido de carbono e o metano, em cidades como Nova Iorque, Istambul, Cidade do México, São Paulo e na própria Wu-Ham.

Foto mostra duas imagens aéreas de Veneza, uma com muitos barcos e a outra sem, tudo causada pelo Coronavírus
Veneza, vista de cima: a esquerda (no ano de 2018) o intenso fluxo de embarcações agitando as águas e espantando a vida marinha; a direita (2020), devido a pandemia, os canais da cidade estão mais limpos, com a volta de peixes e golfinhos (Fotos: Google Earth)

Outro efeito ambiental inesperado do Coronavírus foi observado em Veneza (Itália). Com o número de turistas reduzido, as águas nos canais da cidade estão mais limpas do que nunca. Com os barcos parados, a agitação de sedimentos e de outros poluentes derramados na água caíram drasticamente, possibilitando o retorno de peixes e até de golfinhos.

Coronavírus: um experimento forçado

Uma pandemia global que reivindica a vida de seres humanos certamente não deve ser vista como uma maneira de provocar melhorias ambientais nem deve ser alentadora no sentido de trazer um bem menor[7].  Mas caso ainda exista quem não aceite ou negue o papel nefasto das emissões de GEEs na qualidade de vida e que elas são, de fato, responsáveis pelo efeito estufa e pelo aquecimento global, terá agora uma excelente oportunidade para, finalmente, aceitar mais um robusto e praticamente definitivo argumento científico. Basta comparar o que ocorreu na atmosfera antes e depois da Covid-19 para se convencer do que já era evidente: os combustíveis fósseis estão contaminando o planeta de tal forma que em pouco anos a vida restará impossível devido à poluição e ao aquecimento global. Esse é o resultado do maior experimento – nos moldes daquele citado acima, mas em escala global – dos últimos tempos em relação à redução da poluição do ar e emissões de GEEs.

Foto mostra rua no centro da cidade de São Paulo, com carros passando
A grandes maioria de veículos que rodam pelas cidades, ainda é movida à
combustíveis fósseis, como em São Paulo, Brasil

Fica evidente que por causa do Coronavírus, agora os países terão uma chance maior para cumprir as metas do Acordo Climático de Paris. Como consequência, à medida que as atividades humanas se reduziram, as emissões associadas também estão caindo como subproduto do surto de Covid-19, forçando os principais atores econômicos a atingir metas de redução que alegavam não conseguir.

Por um lado, não sabemos quanto durará essa queda nas emissões com o recrudescimento na pandemia. Retornarão com intensidade maior, permanecerão como se nada tivesse acontecido ou terão um caráter mais profundo e persistente? Um fator determinante para influenciar a recuperação econômica aos níveis anteriores será a duração do surto.

Imagem mostra informações sobre metas do Acordo de Paris
Devido a pandemia, países terão uma chance maior para cumprir
algumas das metas do Acordo Climático de Paris

É óbvio que ninguém gostaria que as emissões de GEEs fossem reduzidas dessa maneira. A Covid-19 está cobrando um preço sombrio em vidas, serviços de saúde, empregos e saúde mental. Mas também mostrou a diferença do que a pressão das comunidades, de posse agora de dados poderosos e consistentes, poderia fazer se daqui para frente agissem para forçar os governos a preservar a saúde ambiental e, por consequência, a humana. Essa é uma lição inestimável para lidar com as mudanças climáticas que estão destruindo o planeta. As atividades econômicas desenfreadas, provocadas por uma sociedade que elege o consumo como meta, levará o planeta a uma inexorável destruição. Se não pelas pandemias certamente seria devido às mudanças climáticas. Agora, que as pandemias são controláveis, em certa medida (como certamente será a Covid-19), temos um excelente momento para escolher o que queremos.


[1] ou Covid-19, sigla do inglês: Corona Vírus Disease19; os dois algarismos fazem referência ao ano de 2019 quando surgiu a pandemia.
[2] ou IATA, sigla do inglês para International Air Transport Association.
[3] Disponível em: <twitter.com/ACI_EUROPE/status/1237351403548540928>. Acesso em: 17abr2020.
[4] Disponível em: < https://www.esa.int/Applications/Observing_the_Earth/Copernicus/Sentinel-5P/Air_pollution_remains_low_as_Europeans_stay_at_home>. Acesso em: 17abr2020.
[5] Coronavirus: air pollution and CO2 fall rapidly as virus spreads. Disponível em <www.bbc.com/news/science-environment-51944780>. Acesso em: 17abr2020.
[6] Bloomfield, L. S. P.;  McIntosh, T. L. Lambin, E. F.2020. Habitat fragmentation, livelihood behaviors, and contact between people and nonhuman primates in Africa. Landscape Ecology, 35: 985–1000.
[7] Mooney, C.; Dennis, B; Muyskens, J. Coronavirus could halt the world’s emissions growth. Not that we should feel good about that. The Washington Post. Disponível em: <www.washingtonpost.com/climate-environment/2020/03/06/coronavirus-could-halt-worlds-emissions-growth-not-that-we-should-feel-good-about-that/?arc404=true>. Acesso em: 17abr2020.


Ophelis de A. Françoso Jr. (ophelis@alumni.usp.br)
Biólogo, mestre e doutor pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Bolsista da Capes na Universidade da Califórnia campus de Santa Bárbara. Ex-professor em diversas instituições de ensino superior e editor executivo.

José Eduardo Pereira Wilken Bicudo (jebicudo@usp.br)
Biólogo, Professor Titular aposentado do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e Professor Honorário da Universidade de Wollongong (Austrália).


A Ecooar entende que para termos um meio ambiente equilibrado é essencial melhorar o mundo em que vivemos.

Leia mais sobre o tema: Economia, saúde e sustentabilidade

Fotos e artes: Equipe Ecooar

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