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Foto mostra árvore e caixa para criar abelhas em um de seus galhos

Abelhas: muito além do mel

As abelhas são conhecidas principalmente pelo mel e outros produtos – pólen, própolis, geleia real – e também pelas ferroadas. Produto menos conhecido é o inestimável serviço ambiental como agentes polinizadores, o que as coloca na linha de frente quando o assunto é sustentabilidade.

A apicultura no Brasil

As abelhas europeias da espécie Apis mellifera foram introduzidas no Brasil no século XIX, por padres católicos interessados em obter cera, matéria prima usada à época para a produção de velas. O mel seria, de início, um subproduto da apicultura.

Com o passar do tempo, a criação de abelhas europeias se expandiu. No século XX tornou-se uma importante atividade econômica, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. A adaptação natural das abelhas europeias ao clima temperado dificultava sua criação nas regiões tropicais do país. Com a introdução das variedades africanas, em meados do século XX, esse limite foi superado. Atualmente, as híbridas africanizadas, altamente produtivas, são encontradas em todo o território nacional, seja em apiários ou como populações selvagens. A produção de mel e outros derivados das colmeias é uma atividade lucrativa para muitos apicultores. Porém, pouca gente sabe que o aluguel de colmeias para polinização também é parte da atividade apícola.

Polinização e reprodução vegetal promovida pelas abelhas

As abelhas visitam as flores para obtenção de néctar – que será transformado em mel – e pólen, usados como alimento. Porém, uma única flor não oferece uma quantidade suficiente de mel ou pólen para satisfazer a abelha. Assim, ela visita várias flores em uma única viagem, e depois retorna para buscar mais alimento. O resultado é que parte do pólen, retido nos pelos que cobrem o corpo desses insetos, é transferido de uma flor para outra. A polinização possibilita que a flor seja fecundada, com a consequente formação de frutos e sementes.

Abelhas: muito além do mel
Abelha brasileira sem ferrão do gênero Trigona visitando flor de astrapeia

Vários agentes naturais atuam como polinizadores. Os grãos de pólen podem ser transportados pelo vento, pela água, ou por outros animais que se alimentam nas flores, como morcegos, moscas, borboletas e colibris. Muitas vezes essa relação é altamente específica: uma planta só é polinizada por um agente, tornando-se dependente dele para se reproduzir.

Portanto, a manutenção das populações de plantas nos ambientes naturais depende da presença de agentes polinizadores adequados para cada espécie vegetal. Porém, a importância dos polinizadores não para por aí.

Como fornecedoras de frutos e sementes, as plantas são a base das cadeias alimentares da maioria dos ecossistemas terrestres. Assim, as populações de animais também dependem, indiretamente, da ação dos polinizadores. E as abelhas encontram-se entre os principais agentes polinizadores.

A fauna apícola brasileira

Quando falamos em abelhas, não podemos nos limitar às variedades melíferas europeias, africanas ou africanizadas. A fauna apícola brasileira é composta por dezenas de espécies de meliponíneos. Trata-se do grupo das abelhas sem ferrão e de hábitos sociais, isto é, que vivem em colônias formadas por centenas ou milhares de indivíduos. São exemplos conhecidos: jataí, mandaçaia, uruçu, borá, mirim-preguiça, moça-branca, entre tantas outras. As mamangavas, também sociais, e as solitárias, como os euglossíneos e outros grupos que, juntos, perfazem um total de centenas de espécies nativas.

Abelhas: muito além do mel
Interior da colmeia de mandaçaia (Melipona quadrifasciata) mostrando a rainha e quatro operárias sobre os favos de cria

Por serem nativas, essas abelhas estão totalmente adaptadas às espécies de nossa flora. Embora as variedades europeias sejam muito bem adaptadas às nossas condições, muitas das espécies de plantas brasileiras são polinizadas exclusivamente por abelhas da fauna nativa. Preservar as abelhas brasileiras significa contribuir para a preservação das florestas brasileiras.

O inverso também é correto. O desmatamento e a consequente extinção de habitats é um dos principais fatores que leva ao desaparecimento das espécies nativas. Do que vimos até agora, decorre um efeito cascata. Uma baixa quantidade de abelhas significa pouca polinização, com a consequente redução de frutos e sementes, com efeitos que se alastram por toda cadeia alimentar.

Apicultura, meliponicultura e sustentabilidade

Estudos indicam que cerca de dois terços das safras agrícolas são influenciadas pelas abelhas, e cerca de um terço é dependente das abelhas.

Produtores rurais podem se beneficiar da apicultura tanto com seus produtos diretos (mel, cera, própolis, geleia real e apitoxina), quanto indiretos, como os derivados da polinização que resultam no aumento da safra e na qualidade dos cultivares.

Em um plano mais amplo, a criação de abelhas, especialmente as espécies nativas, contribui para a preservação da biodiversidade de plantas com alto potencial para acelerar a recuperação de áreas degradadas, com os respectivos benefícios para o ambiente natural como um todo.

João Batista Vicentin Aguilar
Biólogo formado pelo Instituto de Biociências da USP (licenciatura e bacharelado)
Mestre em Ecologia e Doutor em Ciências pelo mesmo Instituto (área de concentração do doutorado: Ecologia de ecossistemas terrestres); os trabalhos de pós graduação foram feitos no Laboratório de Abelhas do IBUSP
Professor de Zoologia e Ecologia no ensino superior
Professor de Ciências e Biologia no ensino fundamental, médio e EJA
Autor de livros didáticos para o ensino fundamental e médio

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